• 27 de fevereiro de 2024

Gerson Luís Batistella: “Brasil – Riqueza e miséria de mãos dadas”

 Gerson Luís Batistella: “Brasil – Riqueza e miséria de mãos dadas”

O Brasil é um país de contradições difíceis de assimilar e também justificar. Aos poucos, o País se recupera, em todas as áreas, das consequências da pandemia do COVID-19. Empresas foram varridas do mapa econômico e outras fortemente abaladas, desemprego, diminuição de renda, famílias despedaçadas pela perda de seus entes queridos, a politização e a intolerância tomando conta de todos os aspectos que regem a vida em sociedade.

Na busca da recuperação, especialmente econômica, descontrole de preços, desabastecimento, inflação, perda de poder aquisitivo, desvalorização do real frente ao dólar, incentivo maciço às exportações nacionais, especialmente de produtos não acabados, ou brutos, como a soja, a carne, o boi, o minério de ferro, etc.

Muitos lucraram, alguns por aumento de faturamento decorrente dessas exportações e outros por valorização de suas contas em dólar em outros países na esteira do aumento desse dólar no Brasil e seus efeitos, consequência ou propositadamente.

Na pandemia descobriu-se, usando esse termo, que o Brasil, além dos beneficiados assistencialmente pelo programa federal do Bolsa-Família que irá mudar de nome, que tinha outros 30 milhões de pessoas à margem do emprego e da renda, requerendo o auxílio do Estado, que, sem dinheiro, buscou no mercado financeiro e se endividou.

Deparamo-nos com a realidade de que a China dá as cartas em tudo, que os EUA não querem ser coadjuvantes, e os demais países a reboque dos interesses desses dois grandes.

A pujança e/ou potencial econômico do nosso País, que possui grandes extensões territoriais, água abundante, riquezas minerais, inexistência de crises civis ou militares, de fenômenos naturais como terremotos, furacões ou mesmo vulcões, contrasta com a miséria, a fome, a desesperança de milhões de brasileiros.

Deprimente assistir pessoas, cidadãos brasileiros, numa fila de um açougue qualquer disputando as sobras de ossos retaliados de carne por não possuírem condições de aquisição quando o País exporta abundantemente essa carne e o próprio boi vivo. As pessoas buscando, nos supermercados, a substituição de produtos por de menor preço e qualidade, pois o poder aquisitivo foi corroído pela escaladas de preços. Paralelamente, lemos, assistimos e ouvimos a escalada de lucros do sistema financeiro, de grandes empresas, de aumento expressivo de arrecadações de tributos por parte da administração pública, porquanto, maiores os preços, maiores as arrecadações e dinheiro à disposição.

Triste ouvir de administradores públicos que as pessoas não deveriam se preocupar em estudar muito ou frequentar um curso superior e que, preferencialmente, quem tem menos condições, deveria fazer um curso técnico qualquer para, minimamente, ter alguma chance de obtenção de um emprego. Contradição quando tanto se fala que o destino de um País passa necessariamente pela educação, de qualidade e de acesso a todos. Contradição, pois esses que compactuam com tal pensamento simplista em relação a terceiros não o praticam na educação dos seus próprios filhos, preferindo mandá-los, inclusive, para formação educacional no exterior. Ou expressões de que, quem não puder pagar, que não viaje, deixe para quem tem dinheiro, lógica perversa de pensamento elitizado.

A busca pelo equilíbrio entre o desenvolvimento econômico a qualquer custo e que a riqueza por ele produzida possa, minimamente, repercutir na renda das pessoas de modo geral e não apenas a grupos é o grande desafio que se impõe. Não há e não haverá recurso financeiro a distribuir ou aplicar em ações públicas se não for pelo incentivo e o desenvolvimento das empresas e das atividades econômicas, mediante geração de emprego e renda. Porém, há de se desenvolver, culturalmente, a consciência de que haja um meio termo entre o liberalismo econômico desenfreado e as aspirações românticas do socialismo. Não se constrói um País, equilibrado e digno, que não seja pela ação das pessoas, mediante suas habilidades e competências, retribuição pecuniária pelo seu trabalho e colaboração. Isso se aplica não só a empresas, mas à administração pública, às organizações sociais estabelecidas e a vida em sociedade.

Pensemos sobre isso, pois, até que ponto ou quando deverá prevalecer o pensamento ou sentimento do tipo “eu e minha família estamos bem, os outros não são da minha conta”?

Gerson Luís Batistella. Administrador, professor da disciplina de Gestão Pública, curso de Administração da URI – Frederico Westphalen, Professor/Instrutor da Escola Superior de Gestão e Controle do Tribunal de Contas do Estado RS (TCE-RS) e Coordenador Regional do TCE/RS em Frederico Westphalen.

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