• 16 de junho de 2024

ESQUECIMENTO CRÔNICO

 ESQUECIMENTO CRÔNICO

Gilberto Jasper

Jornalista/gilbertojasper@gmail.com

         Durante nove anos fui repórter da editoria de Geral do jornal Zero Hora. Foi um período inesquecível da minha vida profissional. Uma das coisas que mais me fascinava na função era a possiblidade de viajar para conhecer novos lugares, ter contato com pessoas interessantes e descobrir potenciais desconhecidos do Rio Grande do Sul. Esta rotina, no entanto, mesclava dias de grande alegria e de extrema tristeza. Uma verdadeira montanha-russa de sentimentos.

         Em 1989 passei uma semana no município de Bagé, acompanhado do fotógrafo e amigo Ronaldo Bernardi. O objetivo da nossa jornada era mostrar o flagelo da seca sob os mais diversos ângulos. Lembro-me de conversar com pessoas que enfrentavam longas filas noturnas em torno de caminhões-pipa. A distribuição se iniciava às 19h e varava a noite por dois ou três baldes d’água.

         Para aquela reportagem especial conversei com produtores rurais – principalmente ligados à pecuária, a base da economia local -, com moradores de zonas pobres da cidade, com proprietários de hotéis e com todos impactados pela estiagem. Soava inacreditável que no Rio Grande do Sul se vislumbrasse paisagens que remetiam ao Nordeste brasileiro.

         Solo rachado, carcaças de animais ao longo das planícies e caudalosos rios transformados em fiapos d’água compunham um panorama desolador. Fui à prefeitura buscar informações. Fui atendido com toda deferência. O estado de calamidade pública fora decretado para agilizar a liberação das verbas necessárias no combate à seca. O governo federal havia prometido recursos para concluir a construção de uma barragem e para iniciar outra. Havia um clima de otimismo, apesar do caos instalado, resultado de meses sem chuvas abundantes.

         Décadas mais tarde voltou a ler as mesmas notícias, integrando uma sucessão de tragédias anunciadas há anos. Nunca mais voltei a Bagé, mas não é preciso ser um expert em infraestrutura para concluir que pouco ou nada saiu do papel. Há algum tempo, soube que o Ministério Público local investigava o desvio de recursos públicos destinados à construção de uma barragem. Um velho hábito brasileiro estimulado pela “não vai dar nada”.

         É incrível como a repetição de absurdos é marca registrada do Brasil. Não importa partido ou ideologia, o esquecimento parece crônico.

Canoas Mais

Noticias Relacionadas